quinta-feira, 1 de julho de 2010

Publicado em: Brasil Econômico (Destaque - Biotecnologia - Entrevista) em 23 de Junho de 2010

"Microsofts e googles não nascem todo mês"

Jornal Brasil Econômico publica reportagem especial sobre 10 anos do Projeto Genoma da Xylella e do Genoma Humano e traz como um dos destaques entrevista com Carlos Henrique de Brito Cruz, Diretor Científico da FAPESP.

Martha San Juan França

A revista Nature publicou novo artigo elogioso sobre o bom momento da ciência brasileira no dia 11 de junho deste ano. Nele, cita declarações do diretor científico daFapesp, Carlos Henrique Brito Cruz, segundo o qual, "as coisas estão realmente decolando". Na entrevista abaixo, Brito Cruz elogia o pioneirismo do Projeto Genoma pela Fapesp, mas diz que atualmente há outros igualmente importantes. E afirma que o fato de o genoma ter originado apenas duas empresas não é um mau sinal, mas bastante realista.

O que o senhor considera os resultados do Projeto Genoma da Xylella?

Foram vários, alguns diretamente relacionados ao projeto e outros de abrangência muito maior. Entre os diretamente relacionados está o conhecimento sobre o genoma da própria bactéria e de outros organismos que foram sequenciados em seguida. Foi importante também para a formação de pessoal capacitado para produzir ciência competitiva internacionalmente e spin-offs como a Alellyx e a Scylla. Isso elevou o grau de autoestima dos nossos cientistas, tendo como consequência a valorização da propriedade intelectual. Para a Fapesp, foi importante porque levou a programas de outra natureza, que se beneficiaram dessa experiência. O Bioen (Programa de Pesquisa em Bioenergia), por exemplo, não é um fruto do genoma, mas se beneficiou dele.

Um programa que gerou tantas expectativas não poderia ter originado mais empresas bem-sucedidas?

Essa é uma questão relativa. Eu acredito que duas empresas bem-sucedidas de base tecnológica são um número bastante significativo. Boas universidades internacionais, como o MIT e a Stanford, nos Estados Unidos, geram por ano seis a dez empresas, mas em diferentes áreas do conhecimento. As pessoas têm uma ideia de que as instituições acadêmicas do mundo criam microsofts e googles todo mês, o que não é verdade.

O senhor sente falta de outros projetos genomas na Fapesp?

É bom que haja programas como esse, mas é preciso ter em mente que nem todo progresso científico é feito desse jeito. Há pesquisas menores que contribuem muito e projetos individuais igualmente importantes. O que precisamos é buscar sempre a qualidade. Outra coisa importante é que o Genoma foi um programa bem-sucedido porque antes dele havia 40 anos de CNPq, Capes, Finep apoiando o desenvolvimento da ciência no Brasil. Em São Paulo, particularmente, havia pesquisadores, instituições e três universidades - a USP, a Unicamp e a Unesp.

O senhor pode dizer se atualmente a Fapesp tem outros projetos que podem ser comparados ao do genoma?

Considero que hoje temos três grandes programas em estágios diferentes de desenvolvimento igualmente importantes. Além do Bioen, temos o Biota, sobre a biodiversidade do Estado de São Paulo, e o programa de pesquisas sobre mudanças climáticas. Esse último dependia de um supercomputador que foi agora adquirido e deve começar a trazer resultados significativos. O Biota já está com resultados espetaculares que, inclusive, influenciam as políticas de conservação no Estado. Temos onze resoluções e quatro decretos balizados nos resultados obtidos pelos pesquisadores. E o Bioen abrange 60 projetos de pesquisa em várias áreas e tem a participação de empresas que participam em intensidade quase cem vezes maior do que no genoma.

Como está a integração universidade/empresa?

Hoje, há mais oportunidades do que há dez anos, mas a quantidade e a qualidade ainda é um pouco menor do que a gente vê em países mais desenvolvidos, onde existem mais empresas com programas ousados e centros de pesquisa avançados. A coisa vai melhorar à medida queo Brasil estiver mais exposto ao mercado mundial.

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